A cláusula e a sua retirada

A Meta retirou uma disposição dos seus termos comerciais de utilização atualizados, noticiou o TechCrunch a 17 de outubro, citando o The Verge. A disposição dizia que a Meta podia usar qualquer conteúdo dos domínios de uma conta comercial para fornecer, desenvolver, melhorar, investigar e treinar os seus produtos e serviços.

É uma redação invulgarmente ampla para um acordo comercial. Lida à letra, concede uma licença não sobre o que uma empresa publica nas plataformas da Meta, mas sobre o que está nos sites da própria empresa — e «domínios», no plural, carrega muito peso num documento que se aceita ao comprar publicidade.

O TechCrunch não diz exatamente quando ocorreu a eliminação, apenas que a disposição foi entretanto retirada.

Cabos de rede ligados a um comutador de servidores
A Meta diz que a alteração não muda o seu uso de rastreadores da web. Fotografia de arquivo ilustrativa. Vladimir Srajber · pexels · Pexels License

O que a Meta diz que queria dizer

A posição da Meta não mudou entre as duas declarações, e é essa a parte que vale a pena notar.

Antes da retirada, um porta-voz disse que os termos atualizados não refletiam qualquer mudança no modo como a Meta rastreia a web. Depois, a empresa disse que os termos de rastreio só se aplicavam aos seus produtos de publicidade e de negócio, que o tinha clarificado no texto, e que a alteração não muda a forma como a Meta usa rastreadores.

Pela própria descrição da Meta, portanto, nada se ganhou e nada se abdicou: a cláusula não alargava o rastreio, e apagá-la não o encolhe. O que mudou é o que o documento diz que uma empresa aceitou.

Uma sala de leitura de biblioteca com mesas de madeira
A cláusula foi retirada dos termos comerciais publicados. Fotografia de arquivo ilustrativa. Sami TÜRK · pexels · Pexels License

Porque os editores leram o contrário

O alarme veio dos juristas, não do comportamento da Meta. Os peritos jurídicos ouvidos pelo Nieman Lab chamaram-lhe uma disposição notável e disseram que poderia permitir à Meta raspar os sites dos editores, incluindo para treinar modelos de IA.

O mecanismo que descreveram importa mais do que a redação. Um editor de notícias que compra publicidade, ou que usa qualquer produto comercial da Meta, é uma empresa com domínios. Se os termos concedem licença sobre o conteúdo desses domínios, o editor consentiu o uso para treino ao abrir uma conta publicitária — um consentimento obtido num lugar que ninguém negoceia, o que é coisa diferente de um rastreador que obedece ao robots.txt.

É essa a questão que a eliminação resolve por agora: se a permissão para treinar pode chegar por contrato comercial em vez de por rastreio.

O que observar

Se a cláusula reaparece noutra forma, e se os termos publicados passam a ter versões que tornem a mudança visível às empresas por eles vinculadas. O fundo sobrevive à eliminação: os termos de serviço de produtos publicitários são hoje um lugar onde se escrevem direitos de treino de IA, e são lidos por muito menos juristas do que uma negociação de licenciamento atrairia.