Uma venda, não um resgate
A Character Technologies, a empresa por trás da plataforma de chatbots Character.AI, entrou em processo ao abrigo do Capítulo 11 e colocou-se à venda.
“Character.ai has initiated a voluntary Chapter 11 bankruptcy process to facilitate a court-supervised sale of the company”, disse a empresa a 12 de outubro. Procura “a court-supervised sale of all or substantially all of our assets” e espera que o processo esteja concluído no final de novembro ou talvez no início de dezembro de 2026. A Stretto, Inc. atua como agente de reclamações e notificações.
O número associado ao pedido é de 20 milhões de dólares, e merece ser lido com atenção. Segundo o anúncio do processo, a Disney Worldwide Services aceitou atuar como licitante de referência, pagando 20 milhões por uma licença perpétua e não exclusiva sobre determinada propriedade intelectual e certos direitos, e prestando serviços de transição com antigos trabalhadores da Character.AI que já tinha contratado. É uma licença e um preço mínimo, não a compra do negócio, e ao abrigo da Secção 363 continua aberta a propostas melhores.
Quanto vale a empresa agora
Um documento judicial situa os ativos e passivos estimados da Character Technologies entre 50 e 100 milhões de dólares, noticia a TechCrunch. O mesmo artigo cifra o financiamento total angariado em mais de 193 milhões, junto de investidores como Lightspeed, Greycroft, SV Angel e Andreessen Horowitz.

O presidente executivo, Colin Adams, atribuiu o processo a dificuldades legais, regulatórias e operacionais, e disse que o conselho concluíra que uma venda supervisionada pelo tribunal dava à empresa a melhor oportunidade de maximizar o valor para as partes interessadas. A Wilson Sonsini é assessora jurídica, a Areté Partners assessora de reestruturação e a Houlihan Lokey banco de investimento.
Os 2,7 mil milhões que foram para outro lado
A distância percorrida é a notícia. Em 2024 a Google pagou 2,7 mil milhões de dólares para licenciar os modelos da Character.AI, num acordo que também devolveu à Google os cofundadores Noam Shazeer e Daniel De Freitas. A empresa que ficou deixou de treinar modelos fundacionais e concentrou-se no crescimento, com o diretor jurídico Dominic Perella como presidente executivo interino.
Em outubro de 2024 a plataforma tinha cerca de 20 milhões de utilizadores ativos mensais, segundo números citados pela TechCrunch. O acordo de licenciamento avaliou a tecnologia em 2,7 mil milhões; dois anos depois, a empresa que a construiu declara ativos e passivos de 50 a 100 milhões, e uma proposta de licença de 20 milhões fixa o mínimo do leilão.

O que acontece aos utilizadores
Por agora, nada. “The Character.ai platform remains up and running, and you can continue to access all services at this time”, disse a empresa, acrescentando que continuará a operar durante o processo.
A condição é explícita. Se não surgir uma proposta viável de um comprador disposto a manter o serviço a funcionar, “the platform will be wound down”.
O que observar
Os procedimentos de licitação ainda têm de ser aprovados pelo tribunal, e é no leilão que a pergunta se responde. A proposta da Disney é por uma licença e alguns direitos; não compromete ninguém a continuar a operar uma plataforma de chatbots usada por milhões de pessoas.
Por isso o que importa observar não é o preço, mas se aparece algum licitante que queira o serviço em vez da propriedade intelectual. A empresa deu-se cerca de seis semanas para o encontrar.