O Tribunal de Recursos dos Estados Unidos para o Terceiro Circuito decidiu a 29 de setembro que a ROSS Intelligence não podia invocar o uso justo por ter construído uma ferramenta de pesquisa jurídica a partir de material derivado dos resumos da Westlaw, da Thomson Reuters. É a primeira vez que um tribunal de recursos norte-americano decide se treinar um sistema de IA com material protegido constitui uso justo, e a resposta foi contra a empresa que treinou.

O colectivo confirmou a sentença sumária de fevereiro de 2025 do juiz Stephanos Bibas, com sede no Delaware, que concluiu que a ROSS violou 2243 resumos: as sínteses editoriais que a Thomson Reuters escreve para assinalar os pontos de direito de uma decisão judicial. A ROSS obteve material derivado desses resumos através de um licenciado da Westlaw e usou-o para treinar um produto vendido aos mesmos clientes. A empresa fechou a plataforma em 2021, alegando o custo do litígio.

A decisão chegou um dia depois do dispositivo

A 29 de setembro o tribunal publicou apenas uma ordem de uma página com a palavra “CONFIRMADO”, mantendo a fundamentação sob sigilo à espera das supressões propostas. A decisão, redigida pela juíza Tamika Montgomery-Reeves, ficou disponível a 30 de setembro.

O seu núcleo é o primeiro factor do uso justo. O colectivo concluiu que o sistema da ROSS não produzia expressão nova: “citava decisões judiciais relevantes para uma pergunta” em vez de escrever algo próprio. Nessa leitura, a cópia servia o mesmo propósito do original e concorria directamente com ele, quase o inverso de um uso transformativo.

Cadeiras de madeira vazias alinhadas numa sala revestida a madeira
O colectivo ouviu as alegações em junho e decidiu em setembro. Foto ilustrativa. cottonbro studio · pexels · Pexels License

O tribunal traçou uma linha em torno dos sistemas generativos

A frase mais consequente para todos os outros pode ser uma nota de pé de página. Na página 17, nota 7, o colectivo distinguiu expressamente este caso dos litígios sobre IA generativa, citando Bartz e Kadrey — as duas decisões de primeira instância que até agora enquadraram a discussão norte-americana sobre treinar grandes modelos de linguagem com livros.

É uma delimitação deliberada. A ROSS construiu uma ferramenta de recuperação que mostrava texto judicial existente; um modelo que escreve prosa nova a partir do que leu é outro objecto, e o Terceiro Circuito recusou-se a decidi-lo aqui. Os titulares de direitos citarão a decisão ainda assim pela sua estrutura: um concorrente comercial que copia trabalho editorial para competir no mesmo mercado perde nos factores um e quatro.

Uma pequena pilha de cartões brancos em branco sobre um pano de linho
A decisão assenta no primeiro factor do uso justo. Foto ilustrativa. https://kaboompics.com/ · pexels · Pexels License

O que muda agora

Há dezenas de processos de direitos de autor sobre IA pendentes em tribunais federais norte-americanos e, até esta semana, nenhum dispunha de autoridade de recurso em qualquer sentido. Agora existe, e favorece os titulares de direitos nos factos que abrange. Os réus argumentarão que esses factos são invulgarmente estreitos: um resumo é escrita editorial, a ROSS vendia no próprio mercado da Westlaw e nada do que o sistema produzia era novo.

O que a decisão não faz é resolver se ingerir texto protegido para treinar um modelo generativo é uso justo. Diz, numa nota, que essa não era a questão.

O que observar

Se a ROSS pedir reapreciação pelo Terceiro Circuito em plenário ou pelo Supremo Tribunal, e com que rapidez os autores dos processos generativos começarão a citar a nota 7, seja para a conter, seja para sustentar que o raciocínio do tribunal alcança mais do que o colectivo admitiu.