Segurar o preço de revenda de uma GPU

A Nvidia tem estado a falar com seguradoras sobre cobrir os credores contra o risco de os seus próprios chips, dados como garantia de empréstimo, não poderem ser revendidos por valor suficiente para saldar a dívida, noticiou o Financial Times na segunda-feira.

A estrutura em discussão é estreita e concreta. Um operador de nuvem mais pequeno — uma «neocloud» — pede emprestado para comprar aceleradores da Nvidia e dá-os como garantia. Se esse devedor entrar em incumprimento e os chips valerem menos na revenda do que o empréstimo em dívida, uma seguradora cobre a diferença. Segundo a notícia, a Nvidia partilhou com pelo menos uma seguradora dados de depreciação dos chips e projeções do valor futuro da capacidade de computação, e trabalha com o corretor de resseguro Howden Re, que se recusou a comentar.

As conversas estão numa fase inicial e podem não dar nada. A Nvidia não anunciou qualquer acordo.

O que a Nvidia está realmente a vender

O ponto não é o seguro. É o que o seguro tornaria possível.

Grande plano de pequenos componentes eletrónicos numa placa de circuito azul
A incógnita é quanto vale um acelerador usado daqui a três anos. Foto ilustrativa. Ivan Chumak · pexels · Pexels License

Jensen Huang passou o último ano a defender que a computação deve ser tratada como uma classe de ativos investível — algo que um credor possa avaliar como avalia aviões, imóveis ou navios. Isso exige uma resposta defensável a uma pergunta: quanto vale uma GPU usada daqui a três anos? Até agora, todos os credores fora das maiores tecnológicas se recusaram a adivinhar.

Um invólucro securitário é como outras indústrias intensivas em capital resolveram o mesmo problema. Tira a questão do valor residual do balanço do credor e passa-a a quem tem por ofício apreçar o risco de cauda. Se funcionar, o conjunto de instituições dispostas a financiar hardware da Nvidia cresce muito para além dos hiperescaladores.

Os números são maiores do que as seguradoras

Há um problema de escala, e a notícia nomeia-o. As operações em ponderação podem exceder os balanços mesmo de grandes seguradoras, razão pela qual a Nvidia também explorou usar grupos seguradores para sindicar o risco a fundos de cobertura e outros investidores alternativos.

Contentores empilhados num terminal portuário
Outras indústrias intensivas em capital resolveram o valor residual com seguros. Foto ilustrativa. Nhựt Nguyên Trần · pexels · Pexels License

É um padrão conhecido. O risco que um balanço não aguenta é fatiado e distribuído por investidores cada vez mais distantes do ativo subjacente, cada um a apreçar um modelo e não uma máquina. E o modelo aqui — o valor de revenda de uma geração concreta de acelerador daqui a vários anos — não tem historial longo por onde se calibrar.

O passo segue-se ao acordo de agosto da Nvidia com a Apollo, BlackRock, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR sobre plataformas destinadas a mobilizar mais de 500 mil milhões de dólares de capital de terceiros para infraestrutura de IA, e chega dias depois de o conselho ter aumentado em 150 mil milhões a autorização de recompra.

O que observar

Duas coisas. Se alguma seguradora chega a subscrever a cobertura, e a que preço: o prémio será a primeira cotação real do mercado sobre a rapidez com que um acelerador de IA perde valor. E se os empréstimos daí resultantes vão para operadores que de outro modo não conseguiriam financiar-se, que é o propósito declarado e também o risco.