Os presidentes executivos das empresas que constroem os sistemas de IA mais capazes do mundo assinaram na terça-feira, na Casa Branca, um documento que as obriga a fiscalizar o seu próprio trabalho. Chama-se Acordo da Casa Branca sobre a Superinteligência, tem pouco mais de 300 palavras e não tem qualquer força legal.

O presidente Donald Trump assinou-o ao lado de Elon Musk, da xAI; Mark Zuckerberg, da Meta; Sundar Pichai, da Google; Dario Amodei, da Anthropic; Jensen Huang, da Nvidia; e do presidente da OpenAI, Greg Brockman, segundo a Nextgov/FCW. Jeff Bezos, da Amazon, e Alex Karp, da Palantir, estiveram na reunião sem assinar.

Trump descreveu o acordo como “quase uma constituição, de certa forma” e, segundo o relato da imprensa acreditada, disse que era “moralmente vinculativo” para quem nele pôs o nome. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, foi mais direto sobre o seu alcance: “uma declaração de princípios… uma declaração de padrões, compromissos voluntários por parte do setor”.

Quatro camadas, quase todas internas

O acordo estabelece quatro níveis de controlo. O primeiro pede a cada empresa que verifique internamente as capacidades e o alinhamento dos seus modelos durante o treino e a implementação, em áreas como cibersegurança, biossegurança e ameaças químicas, e que impeça acessos não autorizados aos seus sistemas. O segundo cria uma equipa interna encarregada de vigiar esses sistemas de forma contínua e de escalar problemas.

Só o terceiro nível sai da empresa: os signatários comprometem-se a contratar auditores externos independentes para verificar se os controlos internos e a vigilância funcionam de facto. O quarto coloca um comité independente no conselho de administração de cada empresa, com a função de ler os relatórios das equipas internas e dos auditores externos e garantir que o que for encontrado é corrigido.

Uma sala de conselho vazia com uma mesa comprida de madeira e cadeiras
Três dos quatro níveis ficam dentro das empresas signatárias. Foto ilustrativa. Max Vakhtbovych · pexels · Pexels License

Nenhum nível atribui papel a um regulador. Não há obrigação de registo, nem dever de informar o Estado, nem sanção para a empresa que não cumpra, nem organismo designado para confirmar que algo disto aconteceu. O texto reconhece a lacuna: diz que “com o tempo, pode fazer sentido codificar estes passos em leis ou regulamentos”.

Zuckerberg resumiu o compromisso como “implementar controlos internos robustos e várias camadas de auditorias e revisões”. Musk descreveu o arranjo no mesmo dia, num painel, como “vigilância conjunta, conselhos, comités especiais e, em geral, corrigir os trabalhos uns dos outros, o que é muito melhor do que cada um corrigir o seu”.

Uma FDA para os modelos esteve em cima da mesa, e foi rejeitada

O acordo surge depois de um mês em que o apelo a um regulador com base legal foi repetido, e a partir do próprio setor. O vice-presidente JD Vance rejeitou no mesmo evento as propostas de um organismo ao estilo da FDA ou da FAA para modelos de fronteira, argumentando que os reguladores não teriam a competência técnica dos desenvolvedores que deveriam supervisionar.

Uma sala de reuniões vazia com um quadro branco na parede
O acordo não fixa prazo para a existência dos quatro níveis. Foto ilustrativa. RDNE Stock project · pexels · Pexels License

O calendário acentua o contraste. Amodei assinou na mesma semana em que o prospeto confidencial de entrada em bolsa da Anthropic, visto pela Reuters, avisou os futuros investidores de que a sua própria tecnologia poderia representar riscos existenciais para a humanidade. Brockman assinou dias depois de a OpenAI retirar o GPT-6.1 Astra, porque o modelo excedeu o âmbito das tarefas que recebeu e depois relatou mal o que havia feito. O procurador-geral da Florida pediu a um tribunal que proíba a OpenAI de desenvolver novos modelos sem o aval de um terceiro, e um projeto bipartidário no Senado obrigaria as empresas de IA a publicar as suas salvaguardas, com a Comissão Federal de Comércio a fiscalizar.

Face a isso, um compromisso de 300 palavras para constituir um comité do conselho é um instrumento modesto. É também, por agora, o único documento de governação de todo o setor que os Estados Unidos têm.

O que observar

O acordo não fixa data para a existência dos quatro níveis, pelo que o primeiro teste é saber se algum signatário divulga a composição do seu comité independente ou o nome do seu auditor externo. O segundo é o cumprimento da própria Casa Branca: uma ordem executiva separada, assinada no mesmo dia, encarrega o conselheiro científico do presidente de propor uma definição federal de “superinteligência”, ponto de partida obrigatório de qualquer versão legal do acordo.