Uma mudança de nome, anunciada do púlpito
O presidente Donald Trump disse na terça-feira à Assembleia Geral das Nações Unidas que os Estados Unidos vão deixar de chamar à tecnologia inteligência artificial. “A partir deste momento, todos os documentos dos Estados Unidos e, espero, os do mundo serão alterados para usar o termo muito mais exato super em vez de artificial”, afirmou. “Portanto, é superinteligência.”
A razão declarada está no adjetivo. O uso da palavra artificial, disse, faz a inteligência soar a falsa, e não é. “Bem-vindos ao novo mundo da superinteligência — SI”, disse à Assembleia.
A parte que não é sobre vocabulário
A mudança de nome chegou colada a uma posição política. Trump afirmou que os Estados Unidos rejeitam qualquer tentativa de construir um mecanismo globalista para controlar a tecnologia, segundo a Ynetnews, que relatou as suas palavras a partir de Nova Iorque. Acrescentou que não vai sufocar o crescimento de algo que espera vir a ser maior do que a Revolução Industrial e do que a própria internet.

Enquadrou a competição em termos absolutos. “Quem ganhar a superinteligência ganha”, disse. “É esse o grupo que ganha. E estamos agora à frente da China por muito e de todos os outros.”
O que uma mudança de nome pode e não pode fazer
Um presidente pode mudar o vocabulário do poder executivo. As agências federais escrevem segundo manuais de estilo, e esses manuais seguem instruções. O que a mudança não toca é o corpo de leis e regulamentos já escrito em torno do termo existente: estatutos estaduais, linguagem de contratação pública, a Lei de IA da União Europeia e o trabalho de normalização que lhe faz referência, e todo o instrumento internacional que use “inteligência artificial” como expressão definida.
A terminologia também não é neutra aqui. “Superinteligência” tem um significado concreto na literatura técnica e de segurança: um sistema que excede a capacidade humana em praticamente todos os domínios, coisa que nenhum sistema em funcionamento é. Aplicar a palavra aos sistemas atuais por decreto apaga uma distinção de que dependem os investigadores de segurança, e os reguladores que os leem.

A semana à volta
O discurso cai numa quinzena densa de posicionamento norte-americano. Trump disse a 19 de setembro que criaria uma “Força de IA” à imagem da Força Espacial e nomearia um responsável máximo para a IA. Dias antes, o próprio painel científico independente da ONU sobre IA avisou que o modelo tradicional de salvaguardas se está a desfazer. Washington propôs entretanto a Pequim um sistema de alerta de incidentes de IA, e os dois governos acordaram abrir um diálogo sobre a tecnologia.
Rejeitar a governação centralizada do púlpito da Assembleia Geral enquanto se propõe um canal bilateral de incidentes com a China não é uma contradição, mas é uma escolha: cooperação organizada de Estado para Estado e não através da instituição a que se dirigia.
O que observar
Se a mudança é emitida como instrução escrita — uma ordem executiva ou uma diretiva de estilo para as agências — ou se fica por uma declaração feita de um púlpito. É essa a diferença entre uma mudança de marca e uma regra. Vale a pena observar também se os documentos federais sobre IA, dos anúncios de contratação aos organismos de normalização em que os Estados Unidos participam, mudam realmente as palavras que usam.