O adiamento

A Anthropic passou a sua entrada em bolsa de outubro para novembro, noticiou na quinta-feira o Wall Street Journal, citando pessoas conhecedoras do processo. A empresa disse na semana passada ao Business Insider que tinha escolhido a Nasdaq e esperava concluir a operação em outubro; este é o primeiro desvio nesse calendário.

A razão apontada é simples. As semanas adicionais permitem à Anthropic fechar o terceiro trimestre e colocar esses números diante dos investidores antes da ronda de apresentações — números que cobrirão o período posterior ao lançamento do GPT-6 Astra pela OpenAI no início de setembro. Uma empresa que vai vender ações num mercado que acabou de ver o seu maior concorrente lançar um modelo de topo prefere mostrar o trimestre a descrevê-lo.

As notícias avisam que a data pode voltar a mudar consoante as condições de mercado.

Os números por trás

O New York Times noticiou, e a Bloomberg retomou, que a Anthropic espera receitas anualizadas acima de 100 mil milhões de dólares este ano. A trajetória até aí é invulgarmente íngreme: cerca de 9 mil milhões no final de 2025, à volta de 65 mil milhões em ritmo anualizado no final de julho, e investidores iniciais a projetar cerca de 110 mil milhões anualizados no final do ano.

Gráficos financeiros impressos sobre uma secretária
Ilustração: as receitas anualizadas noticiadas partiam de cerca de 9 mil milhões no final de 2025. MART PRODUCTION · pexels · Pexels License

São números transmitidos por pessoas próximas da empresa, não divulgações auditadas, e a Anthropic não os publicou. O prospeto será o primeiro documento que terá de responder por algum deles.

Os investidores que discutem a operação falam numa avaliação de cerca de dois biliões de dólares e num encaixe de até 100 mil milhões, segundo as mesmas fontes. A esse nível, seria a maior entrada em bolsa alguma vez registada, à frente da SpaceX em junho.

A parte incómoda

O calendário assenta mal no que tem dito o próprio diretor executivo da Anthropic. Dario Amodei passou o último mês a defender publicamente que os laboratórios de fronteira devem abrandar em conjunto, e na quinta-feira a empresa nomeou a Accenture sua primeira avaliadora de segurança integrada, com um compromisso de pelo menos mil milhões em cinco anos.

Silhueta urbana de torres de escritórios ao anoitecer
Ilustração: os investidores falam numa avaliação de cerca de dois biliões de dólares. Deane Bayas · pexels · Pexels License

Uma empresa que defende contenção enquanto prepara a maior entrada em bolsa da história tem de sustentar dois argumentos ao mesmo tempo: que a tecnologia é perigosa o bastante para exigir travão, e que a sua trajetória comercial justifica um preço de dois biliões.

Sam Altman escolheu o outro caminho. Excluiu uma entrada em bolsa da OpenAI este ano, dizendo que, dadas as preocupações de segurança, “neste momento seria um momento desaconselhável para ir a público”.

O que acompanhar

O prospeto, quando surgir, é onde as receitas noticiadas se aguentam ou não. Será também a primeira vez que alguém fora da Anthropic vê o lado dos custos: quanto a empresa gasta em computação e quanto das receitas sobrevive a isso. Até lá, todos os números em circulação vêm de pessoas que falam com jornalistas, não de um documento registado.