A Anthropic contratou uma despesa de 518 mil milhões de dólares em infraestrutura de computação para a próxima década, e cerca de 80% desse valor é não cancelável ou tem de ser pago independentemente de a capacidade ser usada. Os números constam do prospeto confidencial de entrada em bolsa da empresa, a que tiveram acesso os jornalistas da Reuters Echo Wang e Sabrina Valle.
O documento foi entregue de forma confidencial em junho. É a primeira contabilidade discriminada do que custa manter um laboratório de fronteira abastecido de computação, e o que salta à vista não é o total, mas a forma das obrigações que o sustentam.
Quatro contrapartes e muito pouca margem
A maior rubrica isolada é a Broadcom: cerca de 161,2 mil milhões de dólares em obrigações de locação de equipamento, que o prospeto descreve como em grande parte não canceláveis. A Broadcom associou-se à Google em abril para fornecer à Anthropic vários gigawatts de capacidade em TPU.
Seguem-se os compromissos de nuvem. A Anthropic obrigou-se a gastar pelo menos 111,1 mil milhões com a Google entre abril de 2026 e julho de 2033, e pelo menos 110 mil milhões com a Amazon entre maio de 2026 e abril de 2036. Nos dois casos, segundo o documento, se a despesa real ficar abaixo do valor contratado a empresa tem de pagar a diferença à contraparte. Um terceiro acordo compromete 31,4 mil milhões com a Microsoft entre novembro de 2026 e maio de 2033, e o prospeto descreve-o como não cancelável salvo incumprimento material não sanado da Microsoft.

Dois acordos fogem a esse padrão. A Anthropic revelou contratos com a xAI, de Elon Musk, até 84,5 mil milhões de dólares em capacidade assente em Nvidia até 2029, que segundo o documento são em larga medida canceláveis com 90 dias de aviso. Tem ainda um acordo com a AMD para até 20 mil milhões em capacidade de computação, a par de um compromisso de compra de 5 mil milhões em ações da AMD.
O argumento para assinar
O raciocínio que a Anthropic apresenta no prospeto é que a computação está a tornar-se a restrição determinante do setor, e não um custo a otimizar. A procura de sistemas avançados será, diz a empresa aos investidores, limitada sobretudo pela disponibilidade de computação — pelo que a capacidade garantida hoje a um preço conhecido vale mais do que a flexibilidade preservada.
É uma posição defensável e cara. Um contrato take-or-pay transforma um custo variável num custo fixo. Se as receitas da Anthropic crescerem até preencher a capacidade, os contratos parecerão previsão. Se não crescerem, o dinheiro é devido na mesma, e o prospeto é explícito ao dizer que a maioria destes acordos não lhe dá saída.

Lido com o resto do documento
O mesmo prospeto, noticiado no início desta semana, avisa os futuros investidores de que a tecnologia da própria Anthropic pode representar riscos existenciais para a humanidade, e a SiliconANGLE noticiou que mostra um prejuízo operacional de cerca de 8 mil milhões de dólares face a um crescimento rápido de receitas. Somadas, as três divulgações descrevem uma empresa que diz ao mercado público que dá prejuízo, que está contratualmente comprometida a dez anos e que constrói algo que ela própria considera potencialmente perigoso.
A lista de contrapartes é também uma história. Google e Amazon são ao mesmo tempo investidores e fornecedores da Anthropic; a Microsoft é o principal apoio do seu concorrente mais próximo; a xAI é uma rival direta que aceitou alugar-lhe capacidade. Muito pouco dos 518 mil milhões é gasto entre partes independentes.
O que observar
O prospeto continua confidencial, pelo que os números aqui referidos são a leitura da Reuters de um documento que a Anthropic não publicou. O S-1 público, quando for entregue, mostrará se estes compromissos são reformulados e se a empresa divulga o calendário anual de pagamentos. O outro ponto a seguir é o único número que ninguém tem: quanto espera a Anthropic receber na mesma década em que já aceitou gastar.