Cinco dias

Matt Clifford deixa a presidência da ARIA, a agência britânica de investigação de alto risco financiada por impostos, cinco dias depois de a Anthropic o ter anunciado como diretor-geral de assuntos internacionais. Comunicou a decisão a 7 de setembro e permanecerá no cargo até 6 de novembro para dar tempo ao Governo de encontrar um sucessor.

“Tendo completado o meu primeiro mandato integral no mês passado, decidi sair para garantir que o meu novo papel na Anthropic não se torna uma distração do trabalho notável da ARIA”, afirmou.

O que fazia de cada lado

Clifford é o que o Reino Unido tem de mais próximo de um autor da sua política de IA. Dirigiu a Cimeira de Segurança da IA de 2023 e escreveu o AI Opportunities Action Plan, encomendado em julho de 2024 e publicado em janeiro de 2025; o Governo adotou as 50 recomendações e nomeou-o seu conselheiro para as Oportunidades da IA.

A ARIA é inspirada na DARPA norte-americana e entrega dinheiro público a investigação de alto risco e alto retorno, boa parte dela ligada à IA ou por ela viabilizada. O novo cargo na Anthropic coloca-o à frente da relação da empresa com governos fora da América do Norte.

O Palácio de Westminster visto da outra margem do Tamisa, em Londres
Clifford sai da ARIA a 6 de novembro e fica enquanto se procura um sucessor. Imagem de arquivo. Héctor Berganza · pexels · Pexels License

O plano inicial era manter os dois

Quando a contratação foi anunciada a 2 de setembro, Clifford tencionava continuar como presidente da ARIA, com o plano declarado de se escusar, na agência, aos assuntos ligados à Anthropic. Mantém ainda um cargo na sociedade de capital de risco Entrepreneurs First.

Dame Chi Onwurah, que preside à comissão de Ciência, Inovação e Tecnologia dos Comuns, disse que a intenção de permanecer na ARIA “cria um claro conflito de interesses”. Foi esse o argumento que venceu.

O que a comissão continua a pedir

Onwurah saudou a demissão mas não deu o assunto por encerrado: continuam em aberto, disse, questões importantes sobre que avaliações de conflito de interesses foram feitas e que salvaguardas existem para proteger a confiança na governação da ARIA.

A questão não é verdadeiramente a intenção de Clifford. É que um arranjo assente em escusas tenha sido considerado suficiente no momento da nomeação, por quem o considerou, para alguém que preside ao órgão que decide que investigação britânica recebe dinheiro público e que representa em simultâneo um laboratório de fronteira perante governos. A comissão quer saber quem validou isso.

Uma sala de comissões vazia com filas de cadeiras e uma mesa comprida
A comissão continua a perguntar que avaliações de conflito de interesses foram feitas. Imagem de arquivo. Anna Shvets · pexels · Pexels License

O padrão mais amplo

Há três anos que os governos contratam pessoas que percebem de IA de fronteira, e quem percebe de IA de fronteira vem quase sempre dos laboratórios, ou acaba neles. O Reino Unido construiu as suas instituições de IA mais depressa do que a maioria, em parte apoiando-se nessa porta giratória. Esta é a fatura: a mesma competência que torna alguém digno de nomeação é o que torna a nomeação difícil de defender assim que essa pessoa aceita um lugar do outro lado.

O que observar

Quem substitui Clifford na ARIA e se o Governo publica a avaliação de conflito de interesses que a comissão reclama. Vale também a pena ver se a próxima nomeação vem inteiramente de fora do setor da IA — isso seria uma mudança de prática, e não apenas de pessoa.