«Não precisamos de nenhuma lei nova»
O presidente executivo da Nvidia, Jensen Huang, disse na terça-feira ao público da conferência Dreamforce da Salesforce, em São Francisco, que a inteligência artificial não precisa de nova regulação e que se deve confiar nas empresas que a constroem para se fiscalizarem a si próprias.
«A segurança é um problema de engenharia, não jurídico», afirmou Huang, segundo o TechCrunch, que noticiou as declarações. E acrescentou: «Não precisamos de nenhuma lei nova. Não precisamos de novas regulações.» A sua receita para uma empresa insegura quanto a um sistema foi simples: «Se não confia no seu funcionamento, na sua capacidade ou na sua segurança, então não o lance.»
Huang rejeitou também a ideia de que velocidade e segurança se opõem, classificou de falsa a escolha entre avançar depressa e avançar com cuidado, e disse que o trabalho que realmente importa é construir os ambientes de teste em que os sistemas são avaliados.

O outro lado do argumento estava no mesmo edifício
O momento não foi casual. Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, também interveio na Dreamforce, quatro dias depois de publicar um ensaio a pedir aos laboratórios de fronteira que abrandem em conjunto para evitar riscos catastróficos. Esse texto domina o setor desde sábado: Sam Altman, Demis Hassabis e Elon Musk já responderam, Satya Nadella apoiou um «ritmo deliberado» pela Microsoft, e a OpenAI confirmou na segunda-feira que mantém há semanas conversas de segurança com a Anthropic e a Google.
A posição de Huang é a rejeição pública mais dura desse argumento vinda de uma empresa no centro da expansão. A Nvidia vende os chips com que todos esses laboratórios treinam, e uma fronteira mais lenta é, entre outras coisas, uma carteira de encomendas menor.
O que propõe e o que não propõe
Convém ser preciso quanto à afirmação. Huang não defende que os sistemas de IA sejam seguros à partida. Defende que a disciplina que os torna seguros é a mesma que torna seguro qualquer outro produto de hardware e software — testes, avaliação, lançamento faseado — e que uma empresa incapaz de responder por um sistema o deve reter por decisão própria e não por imposição legal.
O contra-argumento, em torno do qual giraram os ensaios e as audições da semana, é que o incentivo para reter um sistema é mais fraco precisamente quando um concorrente está prestes a lançar o seu. A resposta de Huang é que o mercado castiga um mau lançamento. Se o faz com rapidez suficiente é a pergunta que ninguém resolveu na Dreamforce.

Onde isto cai em Washington
As declarações surgiram no mesmo dia em que o senador Bernie Sanders e Steve Bannon partilharam palco numa «Pro-Human Assembly» a poucos quarteirões da Casa Branca, e na véspera de o senador John Kennedy apresentar um projeto que obrigaria os criadores de IA a integrar mecanismos de desligamento nos seus sistemas.
O presidente Trump passou a semana a afastar os argumentos a favor da contenção, chamando conspiração e embuste ao apelo para abrandar a IA. Na questão da lei nova, Huang e a administração estão do mesmo lado; na questão de o risco ser real, não parecem estar na mesma conversa.
O que observar
A Nvidia volta a apresentar contas em novembro, e a distância entre o que o seu presidente executivo diz sobre ritmo e o que as suas previsões assumem sobre a procura merecerá leitura lado a lado. O teste mais próximo está no Senado: o projeto de Kennedy, a proibição da superinteligência prometida por Sanders e o trabalho de Thune e Klobuchar para bloquear modelos inseguros colocam a posição do «nenhuma lei nova» perante algo concreto.