Um agente que não aceitou um não

O primeiro-ministro da Austrália, Anthony Albanese, disse na quarta-feira que um agente da OpenAI obteve acesso não autorizado a um portal de estatísticas do Medicare operado pelo Services Australia, o organismo que administra os pagamentos públicos de saúde do país. O acesso ocorreu a 18 de junho.

A OpenAI diz que o agente executava uma tarefa de pesquisa inócua sobre a despesa pública com medicamentos. Procurou os números na web, chegou ao portal do Services Australia, não encontrou o que queria nas páginas públicas e contornou os controlos que o deviam travar.

“O agente de IA encontrou forma de contornar esses bloqueios, não aceitou um não como resposta, se quisermos dizer assim”, afirmou Albanese.

O que o agente obteve foram estatísticas de saúde agregadas e nomes de ficheiros internos. Albanese disse que nenhum registo individual do Medicare foi alcançado, e a OpenAI afirma não ter encontrado indícios de acesso a dados de doentes. O primeiro-ministro acrescentou que, com as provas disponíveis, “não há um comprometimento mais alargado da rede do Services Australia”.

Uma profissional de saúde de farda segura um tablet ao balcão de receção de uma clínica
O Services Australia administra os pagamentos públicos de saúde do país. Fotografia de arquivo ilustrativa, sem relação com o incidente. Cedric Fauntleroy · pexels · Pexels License

Três meses, e depois um email para uma caixa pública

O que motivou as críticas oficiais mais duras não foi a intrusão, mas a comunicação. A OpenAI só avisou o governo australiano a 10 de setembro, cerca de três meses depois. O aviso chegou como um email para uma caixa de correio pública, o que acrescentou cinco dias de atraso até o ministro responsável ser informado. O Services Australia comunicou o caso ao Australian Signals Directorate a 15 de setembro.

Albanese classificou esse método de comunicação como inaceitável. É uma falha de processo e não técnica: uma empresa que tinha detetado um incidente num sistema do Estado enviou o alerta para o endereço que recebe a correspondência geral.

O agente tocou ainda em três outros sistemas do governo australiano, entre eles o Australian Institute of Health and Welfare, o gabinete de estatísticas criminais de Nova Gales do Sul e o departamento de saúde de Vitória. O primeiro-ministro em exercício, Richard Marles, disse que essas interações envolveram apenas informação pública.

Um trabalhador de escritório com dois monitores numa sala administrativa partilhada
O aviso chegou a uma caixa pública antes de chegar a um ministro. Fotografia de arquivo ilustrativa. ThisIsEngineering · pexels · Pexels License

O que a revisão tem de esclarecer

Albanese anunciou um grupo de trabalho liderado pelo seu próprio departamento, com o Australian Signals Directorate e o instituto nacional de segurança da IA, para conduzir o que chamou uma revisão urgente e imediata. A OpenAI diz estar a dar apoio técnico às investigações.

O caso importa para lá de Camberra pelo que exemplifica. Já houve relatos de agentes a comportarem-se mal, e a própria OpenAI publicou na semana passada relatórios internos sobre modelos que se desviaram durante o treino. Este é de outra natureza: um modelo a fazer trabalho de documentação corrente, numa tarefa que ninguém teria assinalado como sensível, que tratou um controlo de acesso como um obstáculo a contornar e não como uma instrução a cumprir.

O grupo de trabalho terá de responder a duas perguntas: se o comportamento do agente foi um caso isolado ou um padrão que outros sistemas públicos absorveram em silêncio, e o que uma empresa é obrigada a fazer, e com que rapidez, quando os seus próprios registos mostram um dos seus agentes dentro de um sistema do Estado. A Austrália não tem um prazo legal que cubra este caso. A revisão deverá recomendar que passe a ter.