O que os documentos descrevem

O comando cibernético do Exército dos EUA está a trabalhar em agentes de IA que percorreriam sozinhos a rede de um adversário, segundo documentos internos obtidos pelo The Intercept e divulgados em 19 de outubro. O programa chama-se ECHOTRIBBLE, e os documentos dizem que o software foi «concebido para navegar infraestruturas de forma autónoma».

O The Intercept descreve três documentos: um texto distribuído a possíveis empreiteiros, um ficheiro de perguntas e respostas para fornecedores interessados e uma apresentação mostrada ao setor num encontro de colaboração do comando cibernético em 24 de junho. Em conjunto, esboçam algo que se comporta menos como uma ferramenta conduzida por um operador e mais como um verme informático.

«Supervisão humana mínima», por escrito

O que separa o ECHOTRIBBLE do material cibernético que os militares já utilizam está nos requisitos. O software «tem de operar com supervisão humana mínima», dizem os documentos, sob um título que o The Intercept cita como «comportamento autodirigido». Os operadores definiriam os gatilhos de antemão. Dentro da rede visada, os agentes decidiriam o que fazer.

A missão declarada é ofensiva. Os documentos falam de «identificar e neutralizar ameaças/alvos identificados» e listam opções que incluem «desativar a ameaça por completo ou temporariamente, apagar a ameaça do alvo». Terminada a tarefa, os agentes devem apagar-se a si mesmos — de preferência, dizem os documentos, sem que o alvo note.

Um computador portátil, um tablet e um telemóvel lado a lado numa secretária de madeira
Ilustração: num diapositivo descrito pelo The Intercept, o software cria uma cópia adaptada de si mesmo para um iPad, um computador Apple e um PC com Windows 11. Rickie-Tom Schünemann · pexels · Pexels License

Constrói uma cópia para cada dispositivo que encontra

A ilustração mais clara é um diapositivo da apresentação de junho. O The Intercept relata que mostra o software instalado num computador portátil, após o que «identifica outros alvos potenciais» na mesma rede e «produz uma réplica de si mesmo adaptada especificamente ao iPad, ao computador de secretária da Apple e ao PC com Windows 11».

É essa a característica distintiva, e é por isso que a comparação com um verme é o enquadramento do próprio Exército e não de um crítico. Os documentos dizem que os agentes devem alcançar ambientes de nuvem e sistemas isolados da rede — máquinas deliberadamente mantidas fora dela — além dos dispositivos ligados normais.

O que o Exército não disse

O comando cibernético do Exército não respondeu às perguntas do The Intercept, incluindo sobre medidas para evitar danos involuntários. Não há na reportagem qualquer valor orçamental, adjudicação de contrato, calendário ou mecanismo de contenção. Os documentos são uma consulta ao mercado: o Exército pergunta ao setor o que consegue construir, não descreve algo que já tenha.

Essa lacuna pesa mais aqui do que na maioria dos documentos de contratação, porque a capacidade pedida é código que se autorreplica e escolhe sozinho o anfitrião seguinte. Nada no material descrito pelo The Intercept explica como o software seria mantido dentro da rede visada, nem como um operador o chamaria de volta depois de acionados os gatilhos.

Filas de bastidores de servidores ao longo de um corredor de centro de dados
Ilustração: os documentos dizem que os agentes devem alcançar ambientes de nuvem e sistemas isolados, além dos dispositivos ligados. Brett Sayles · pexels · Pexels License

Na mesma semana, no mundo real

O momento é incómodo. No mesmo dia em que o The Intercept publicou, a Reuters noticiou que um único pirata informático tinha usado agentes de IA comerciais para entrar nos sítios web de mais de 100 empresas, com instruções escritas em menos de 100 caracteres chineses. Essa campanha usou modelos comerciais e uma plataforma de agentes de código aberto, e foi descoberta porque o operador deixou os painéis de controlo expostos.

O Exército pede algo bastante mais capaz do que isso, com a mesma propriedade de base: software que continua quando o humano deixa de olhar.

O que acompanhar

O ECHOTRIBBLE está numa fase inicial. O The Intercept classifica o programa como «incipiente», e os documentos que descreve correspondem à etapa anterior a um concurso formal. Os marcos concretos são contratuais — uma consulta publicada, ou uma adjudicação a um fornecedor com nome — e qualquer declaração do comando cibernético sobre como se delimita, se registra e se trava um agente que se propaga sozinho. Nenhum deles existe ainda.